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A Troca

Naquela noite fria e chuvosa, me dirijo ao cais da cidade. Fui ao encontro no local marcado. Precisava ver a cara daquele bastardo…

No cais, desço do carro com o cigarro na boca, tiro o isqueiro do bolso e acendo um cigarro que a chuva tenta apagar em vão. Dou uns tragos profundos e olho para a esquina, onde uns vadios me encaram de longe… Mas, a luz do poste criava em mim uma silhueta imponente, o suficiente para que eles mantivessem distância.

Ao apagar o cigarro com meu mocassim preto, as luzes dos galpões começam a sumir…

Ouço o barulho do motor do carro cada vez mais perto… O barulho das rodas a deslizando sobre o asfalto molhado… O carro pára na minha frente, em cima de uma poça d’água. Os vidros filtram a poeira do local e penumbram o sorriso sínico do maldito. Sorriso que me acompanha desde o dia em que me deixei levar por sua conversa frívola e permiti que uma negociata fosse feita em meu nome… E o pior de tudo, o Xbox 360 Elite nas mãos desse crápula… Sabe-se lá o que ele passou, mas ainda está inteiro…

O Sr. Salsa sempre anda cercado de capangas, gente da mais baixa estirpe que se garante em bandos, mas que sozinhos não valem a moeda de cinco mesetas que tenho em meu bolso, o troco do cigarro da marca mais vagabunda vendida na venda do Vega. Enquanto Salsa comete dúzias de extorsões aos comerciantes locais, intimida os idosos e seduz as donzelas inocentes, esse bando de abutres o rodeia esperando migalhas desses atos lastimáveis e mesadas vultosas.

O silêncio da noite é quebrado pela voz áspera e sarcástica do Sr. Salsa: “– Ora… ora, Maurício Carvalho, chegou cedo para o nosso encontro. Hehehe… Tenho aqui comigo alguém que quer te ver. Está morrendo de saudades… Trouxe a encomenda?”

Meu ódio ainda me serve de um ato de coragem: “– Trouxe… mas você terá que vir buscar…” Ele poderia ter me matado ali mesmo, mas por não esperar tal reação, vacila. O sorriso no rosto desaparece e dá lugar à rugas na testa…

“– Juan Pablo… Pegue a encomenda!”
“– O Elite primeiro, espertalhão!” – Tento ganhar tempo…
“– Tenho que admitir que é um homem de coragem, Maurício… Ou sua estupidez lhe obscureceu a razão. Meus primos estão fortemente armados, portanto, nada de gracinhas hein?”

O Xbox 360 Elite é arrancado do carro e é imediatamente amordaçado por um dos seus capangas… Que o empurra até o meio da rua que nos separa e com o suor percorrendo a testa, diz em texto decorado: “– Venha até o meio da rua e coloque a encomenda no chão!”. Ele olha para trás, como se pedisse aprovação…

Eu dou quatro passos seguros, me agacho e deixo a encomenda. Afasto-me com as mãos para cima… Juan Pablo solta o Elite, e se afasta sem se virar. Nesse momento, ele tropeça e cai. Os capangas assustados sacam de seus revólveres e começa o tiroteio. Em poucos segundos, pego o Elite e pulo para trás de um caminhão de entregas estacionado.

Os tiros cortam o céu, iluminam como fogos de artifício em festa de São João, chamando mais a atenção que os par de seios de Nina Brizinski Spomeniki, minha antiga noiva Eslovena… Quebram vidraças e estilhaçam tudo o que encontram em suas trajetórias… Atiro, mesmo sem ver, para que se mantenham afastados. E não me sobram mais balas. Vejo se o Elite está bem, então me viro para o lado e me deparo com um carregamento de granadas de plasma. “Provavelmente, um carregamento interceptado dos Covenant, azar o deles”, pensei. Levanto-me e atiro uma nas costas do vacilão Juan Pablo. Ele grita desesperado e explode alçando no ar. “Esse eu vou gravar e disponibilizar no You Tube”. A explosão o pinta de rubro, que cai em agonia. Conquista Desbloqueada! O Sr. Salsa é protegido pela corja que o colocam no carro e saem em disparada, deixando Juan Pablo sem socorro, pronto para o meu interrogatório.

“– Perdeu, FDP!”
“– Na cara não… pra não… estragar o veló…(gasp)”
“– O que?”
“– Na cara não, pra não estragar o velório…”
“– Tô sem bala” – Lembrei. – “Vou te deixar viver, inseto… Para que conte à todos os marginais dessa cidade que ela tem dono. E que o Sr. Salsa tem seus dias contados. Eu o caçarei como a uma presa, esteja onde estiver. Procurarei em cada esquina, por baixo de cada pedra, em cada sala na Xbox Live até que o encontre”. E cuspo na cara do verme…

Deixo o infeliz no asfalto molhado e pego o meu Elite atrás do caminhão. Entro dentro do carro, puxo outro cigarro… A caixa está perfeita, sem nenhum arranhão, a balanço perto de meus ouvidos procurando ouvir se há alguma peça solta. Depois do episódio das embalagens de Halo 3 Limite Edition, todo cuidado é pouco…

Chego no sobrado e subo as escadas apressado a fim de não ser visto pelo Sr. Barão, que vem cobrar meu aluguel atrasado, jogo o terno sujo no encosto da cadeira, fecho as persianas, fumo outro cigarro… Fico olhando para o Elite em cima da mesa de centro, móvel de Jacarandá-mimoso (Jacaranda mimosaefolia) presente da camareira Jade, uma antiga namorada. Levanto-me e vou ao banheiro lavar as mãos, chegou o ritual de abrir a caixa. De mãos limpas sigo abrindo o lacre com cuidado. O ideal seria amolecer a cola com o vapor da chaleira, mas a peça foi devolvida com o termino do romance com a stripper Lola. Enfim… Depois de vinte minutos, removo o lacre. Ao abrir o Elite, a surpresa: uma… Pedra (Pomus aerolitus) ?!? “– Salsa seu Malditoooooooooooooo!!!!” – Faço ecoar aos quatro ventos da janela do meu apartamento. “– Vai se catar!!!”. – Responde o vizinho do andar de baixo.

Naquele momento começo a rir exponencialmente… Qualquer um acharia que fiquei louco. Ligo a vitrola e coloco Max Payne 2 Original Soundtrack, deito no sofá, tiro meu mocassim preto, pego um DVD… Rio novamente, me lembrando que troquei a encomenda. Sim… Aquela encomenda que o Sr. Salsa tanto queria. Uma troca justa para um homem de tantos pecados, um DVD original do Beautiful Katamari por uma cópia pirata vagabunda do filme Tropa de Elite.

“– Tenha bons sonhos, fanfarrão.”

Mais uma luz se apaga, naquela noite fria e chuvosa.

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