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- Ontem a noite sonhei com um Big Daddy. E olha que só joguei a demo de Bioshock…
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- Ah, valeu pela dica. Tava pensando em consultar o Gamefaqs pra saber o que fazer no meu próximo sonho.
— Tilts

Ano 2000: o nosso Bug do Milênio

por Mauricio Carvalho

Ano 2000. A mundo inteiro já estava de ressaca do bug do milênio que nunca ocorreu. Nada catastrófico tinha acontecido na virada da data em nenhum sistema computacional. talvez um aqui outro ali, mas nada que pudesse ser manchete de primeira página. O mundo estava aliviado. Menos nós, gamers brasileiros. Nosso bug do milênio era outro…

Aquele ano, talvez, tenha sido o nível mais fundo do poço que o nosso mercado de videogames chegou. Depois de uma era áurea dos 16bit, a decadência tinha tomado conta do nosso mercado. Tudo havia começado com a febre Atari e, desde então, os videogames cada vez mais faziam parte do cotidiano do brasileiro. A clássica batalha Sega x Nintendo da primeira metade dos anos 90 também fora travada aqui, em nossas terras. Com direito a revistas exclusivas para cada marca, lançamentos mundiais simultâneos, lojas com grandes estoques de consoles, jogos e acessórios, tudo fabricado ou montado aqui mesmo, no nosso quintal*, na Zona Franca de Manaus. Resumindo, todo aquele cenário que nós, gamers que o vivenciamos, sempre sonhamos em ter de volta.

Com o fim da Geração Nintendo, veio a do Playstation. E, junto, a decadência do nosso mercado. Esqueçamos os motivos, pois este texto não se trata disso. O fato é que em 2000, tudo aquilo que tínhamos na primeira metade da década, tinha desaparecido por completo.

Jogos em lojas? Revistas? Propagandas? Cultura gamer? Suporte de empresas? Nada disso mais existia. Só existia um mundo paralelo, cinza, underground, onde os gamers agora viviam exilados. Tudo relacionado a videogame se tornou ilegal. As empresas que existiam aqui, ou saíram, ou estavam falindo, como a nossa saudosa Tec Toy. As revistas decaíram consideravelmente de qualidade, conteúdo pífio e perda total do foco. Nossas lojas eram os camelôs e lojinhas clandestinas. Nossa propaganda era o boca a boca. Pra importar legalmente, temos que pagar o pecado de 60%. Isso se não implicassem com nossa mercadoria…

Era como ver aquela imagem do mundo real, no filme Matrix, com tudo em destroços, escuro, deserto. Aquele era o mundo em que vivíamos em 2000.

As coisas hoje estão bem melhores que aquele fatídico ano. Ainda não é o ideal, talvez nem perto disso. Mas tudo caminha para uma nova era. Tudo isso, toda essa recuperação é fruto de esforços de gente que de um modo ou de outro, se importa com isso. Seja por paixão, seja por motivos profissionais, seja por motivos de realização pessoal. Mas tudo isso, unido, gerou uma força que criou essa realidade um tanto quanto próspera em que vivemos hoje. Pare pra pensar: hoje há várias entidades e empresas esforçadas por um mercado melhor, eventos nacionais de incentivo pipocam a cada dia, cursos técnicos e superiores surgem em todas as regiões do Brasil, revistas e sites se aperfeiçoam cada vez mais… O contraste com aqueles anos de decadência é grande demais.

Quando lembro do mercado brasileiro de videogames em 2000, vejo que, mesmo quando não parece, tudo tem uma saída. Às vezes parece que o brasileiro, por algum motivo, se torna apático com situações explicitamente decepcionantes com relação ao país com o um todo. Por isso acredite: por piores que estejam, as coisas melhoram. Basta querer e se esforçar para isso. Só não vale usar GameShark.

* Gamers de Manaus, o “quintal” foi apenas uma metáfora com a Amazônia, sem nenhum sentido pejorativo. Muito pelo contrário, sempre quis conhecer Manaus, pois me parece ser uma bela cidade com um belo povo.

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